Quanto mais o ser é primitivo, tanto menor é o patrimônio de ideias que ele possui para se orientar e resolver os casos da sua vida. É assim que para ele os problemas da consciência são muito simples. O bem é, para ele, o que lhe traz vantagem ou satisfação; o mal, o que lhe acarreta prejuízo ou sofrimento.
O bem é só o seu bem; o mal é só o seu mal. Então, na sua mente simples não há razão para que ele não procure pelo caminho mais curto o seu bem, evitando o seu mal. Quanto mais o ser é primitivo, tanto mais ele está fechado e isolado no seu egocentrismo. Neste nível não pode existir senão a ética do próprio interesse.
A ética diz que se deveriam seguir os ditames da consciência. Mas para o primitivo, os ditames da consciência são exatamente os do seu interesse. E, se para atingir a sua vantagem, ele tem de fazer mal aos outros, nada o impede que o faça em plena consciência e convencimento de fazer o bem, mas que, no caso, para ele é só o seu bem, ou seja, o que constitui a sua exclusiva vantagem. Pela sua forma mental, isso representa a sua sinceridade e honestidade.
O problema é este: trata-se de egoísmos rivais, o que é bem para o interesse de um é mal para o interesse dos outros, os quais, encontrando-se em posição oposta, julgam seja mal e mentira, somente para eles, enquanto que para o ofensor é bem e verdade, pelo fato de que ele quer ganhar só para si sem se aperceber que está prejudicando os demais.
Explica-se assim, como, num tal ambiente de egoísmos opostos, tudo acabe na luta, que bem conhecemos, de todos contra todos. Uma vez um missionário perguntou a um selvagem porque é que ele não criava para si uma vaca, ao invés de furtá-la do vizinho. Não, respondeu o selvagem, porque dá menos trabalho furtá-la, ela já está pronta, não é preciso criá-la. Na sua lógica simples, que não entendia senão a sua vantagem particular e imediata, não existia razão pela qual ele não tivesse que escolher o caminho mais curto e fácil, de menor resistência ou menor trabalho. Por que, então, não furtar em vez de trabalhar?
E esta é a psicologia também de muitos que se julgam civilizados. Para eles os simplórios trabalham, mas não eles que são inteligentes e por isso sabem ganhar sem esforço, à custa dos outros.
Mas eles trazem em si mesmos a sua punição, porque a vida os deixará nos níveis mais atrasados, onde a luta é feroz e o sofrimento maior. E terão de realizar todo o esforço necessário se quiserem sair do seu baixo plano de vida. Hoje eles fazem só o que podem entender que seja o seu bem. O bem do evoluído é para eles ainda algo de inconcebível.
Se, para atingir tal objetivo ele tem de enganar, furtar, matar, arruinar os outros, isso para ele não é mal, porque não o percebe na sua carne como sofrimento, mas pelo contrário como satisfação porque por este caminho ele atinge o seu bem-estar, que é a única coisa que lhe interessa.
Há só um meio de parar: ser impedido pela reação do atacado, que com isso lhe deixa entender na sua carne o mal que existe em infligir prejuízo aos outros. Tal indivíduo pode começar aperceber-se que faz mal apenas quando dos seus maus atos derivar um mal também para ele. E isto que acorda nele a consciência do mal feito, que não é um conceito abstrato, mas fruto de uma experimentação pessoal.
Eis a única finalidade benéfica que pode ter a punição, porque ela ensina que entre a ação errada e o sofrimento se estabelece, então, uma conexão de ideias, uma ligação mental causa-efeito, pela qual o indivíduo aprende que, para evitar a dor, é necessário não cair em culpa. Não há método melhor, porque se trata de um biótipo egocêntrico, que concebe tudo só em função de si próprio, separado pelo seu egoísmo de todos os outros seres, e que não pode, por isso, entender que está fazendo mal, até que este se torne mal também para ele.
A conclusão é esta: para o homem confraternizar-se com o próximo, é necessário tê-lo compreendido, por ter experimentado em si próprio, todas as dores que podem atormentar os outros, porque enquanto não tiver feito tal experiência não poderá entender o que se esta passando com eles.
Pietro Ubaldi (Deus e o Universo)

Siga e Curta a Página