Trecho do livro em produção: As folhas amarelas do outono, de minha autoria, cuja história foi concebida na minha adolescência, aos 16 anos de idade. No próximo ano estará disponível para compra.

Caro leitor,

Eu andei sendo bem digamos, severa com Deus. Não chegamos a brigar e nem a discutir, mas a nos confrontar. Eu procurei ser bem sincera com Ele e pedi um sinal, que provasse não somente a sua existência, mas algo mais, algo simples, modesto e humilde, que eu pudesse tocar, sentindo-o, tê-lo na palma da minha mão. Eu acordei hoje ás sete da manhã e não consegui dormir novamente, fiquei pensando na Nina, uma das minhas melhores amigas e implorei a Deus que me deixasse vê-la e que confiasse em mim, que me deixasse ter a despedida que eu tanto queria e não tive, embora talvez o meu olhar de força tenha significado a coragem dela para aguentar a morte. Eu me coloquei na direção do sol e enquanto anjos falavam na minha cabeça, me dizendo, “ procure, procure, está nessa direção”. Eu dizia: ”eu não estou vendo”, disse para o Papai que me mostrasse algo claro, mas inteligente, algo que Ele soubesse que eu O entenderia. E as vozes começaram a me desafiar, dizendo que seria impossível eu achar qualquer sinal de Deus enquanto estivesse pensando na Nina, resolvi caminhar, tirei a sementinha verde de uma erva, que existe em um vaso na minha casa, mas cujo nome eu não me recordo agora, coloquei-a na minha mão, estava cansada e disse que voltaria para dentro, depois que a semente caiu, mas voltei ao vaso e retirei outra semente e esta caiu novamente, acompanhado as minhas mãos trêmulas. Respirei o sol e duvidei que estivesse realmente na realidade, tudo parecia o mais doce dos sonhos, as vozes retrucaram e me chamaram de boba: “ Você acha que há algo mais real ou mais perfeito que o mundo onde você está tocando agora?” Eu me calei e ela continuou falando: ” é uma manhã em perfeita harmonia, os pássaros estão vivendo e conversando e você precisa viver se quiser sentir Deus. ”

Esta minha companheira fiel, tinha uma bolinha cor de rosa que eu jogava e ela corria feito um anjo para pegá-la, a sua força era tanta, ela nunca demonstrava de verdade o quanto era fraca por dentro e isso se chama amor, o desejo em esconder o que não podemos mostrar para não fazer os outros saberem coisas que não está na hora de saberem. O fato é que quando a segunda semente caiu da minha mão, resolvi acreditar que eu não conseguia ver o sinal porque estava concentrada nela, aquilo representou nada mais e nada menos, do que a dissipação do meu sofrimento e resolvi tentar parar de pensar nela.

Eu caminhei depois só procurando sentir as coisas, sentir a cor das flores, sentir o verde, sentir que estava viva, eu escutei um som estranho, assim que passei por um vaso, voltei brincando, para saber se aquilo era um sinal, mas o achei insignificante demais .Dei mais um passo para a frente, levando o meu olhar até o chão e lá estava o meu sinal, o sinal que eu queria ver e que posso enxergar, lá estava a minha folha amarela, suja e preta, machucada pelo tempo, eu a coloquei na minha mão e agradeci a Deus por aquele sinal, Ele me deu a folha fruto da minha inspiração. Eu comecei a escrever o livro As folhas amarelas do outono, em um dia sombrio, não só porque o tempo estava nublado, mas porque eu estava nublada com ele. Eu estava escrevendo no meu outro diário e a porta de onde eu estou agora, precisa que se coloque algo para segurar o vidro, principalmente quando está ventando muito aqui em cima, para ela não ficar batendo e fazer um barulho insuportável, mas eu não queria parar de escrever e ir fechar a porta. Até que eu desisti e fui fechá-la. Olhei para o telhado do vizinho molhado e algo me chamou a atenção, uma folha amarela em contraste com a cor cinza de um telhado de oficina, com certeza ela foi arrastada pelo vento, que deslocou-a para lá, mas ela estava bem aonde deveria estar e eu também, e por isso algo dentro de mim nasceu, na verdade uma história nasceu e nós duas nos apaixonamos.

Tentei voltar a escrever minhas dores, queixas e lamentos, mas não consegui, me senti presa a aquela folha e algo em mim disse: ” não negue a sua inspiração, escreva o que você está sentindo, então como eu ainda sentia o barulho da porta, só de lembrar dele, eu comecei a escrever uma carta, endereçada a mim mesmo, ou melhor a alguém que eu queria que nascesse. E assim nasceu Jordan e depois eu precisei de alguém para quem a carta fosse endereçada e assim surgiu Susi.

Os demais personagens surgiram naturalmente, porque assim como eu escutei uma vez uma mulher que é muito mais do que algo extraordinário, pois ela vive entre nós, temos que aprender a escutar o que a nossa inspiração nos pede, e eu aprendi a escutar a minha. Pensei no significado dessa folha para mim, comparando o final da história, porque muitas vezes eu mesma não utilizo o que eu escrevo para me consolar, mas eu ainda eu estou aprendendo a fazer isso. Deus me deu aquilo que me pertence e pertencerá sempre, Ele me deu o meu dom e quis me dizer para eu confiar em mim e nele, para que possamos conseguir ouvir uns aos outros, Ele me deu o que eu queria, Ele me escutou.

“ Ele olha para o céu bastante nublado, para os brinquedos das crianças, para as árvores sem folhas e abaixa, pega uma folha no chão e fica olhando para ela. Ele se levanta e caminha pela praça e a imagem vai se ofuscando e mostrando ele caminhando:

Sabe, meu Deus, depois de tudo que eu passei na minha vida, eu confesso que eu não nasci para ser mortal, porque nunca vou conseguir entender as razões do ser humano, mas de uma coisa eu tenho certeza, assim como me disse o meu amigo Pablo, tudo na via nasce, cresce, floresce, dá frutos e fica velho e esta folha em minha mão cumpriu o seu papel e caiu, retornando ao lugar de onde algo sempre começa.

Eu demorei a entender que a Susi nunca me amou, que quem a amou o tempo todo fui eu, mas isso não têm importância agora, pois ela está feliz. Eu me sinto como esta folha amarela em minha mão, velha e suja, mas eu sei também que se ela não caísse da árvore, não daria lugar para novas folhas surgirem e abrigarem novos frutos e pensar assim ás vezes me consola, porque nem eu e nem nenhum outro ser humano, pertencerá ao outono, porque a sua existência nunca será negada, seja desde o ser mais complexo que existe no Universo, até a esta simples folha em minha mão, que eu acabo de soltar. ” Trecho retirado do livro As Folhas Amarelas do Outono.

Para que qualquer coisa nova nasça na terra, é necessário a existência dos decompositores, para devolverem os nutrientes ao solo, é como se eles devolvessem algo que nunca os pertenceu, eles nada mais são destes novos seres, do que o seu suporte, eles precisam existir para deixar outros viverem, em um mútuo ciclo de solidariedade. As folhas sempre caem das árvores e vão parar debaixo delas, compondo a sua base, correndo atrás de formas de sobrevivência, e conseguem porque se elas não caíssem jamais dariam uma chance ao inevitável e não arriscariam descobrir a eternidade. Talvez essa folha que chegou até mim, tenha implorado ao vento que a levasse, como último recurso para a sua sobrevivência, porque ela tinha o mais importante, um motivo para continuar lutando, tocar e sentir o solo para habitar a árvore novamente, mas entregue ao cansaço e impedida pela calçada, ela ficou com medo. Ela é tão fraca e frágil que parece dormir na palma da minha mão e eu sei que ela estará viva enquanto eu acreditar que isso possa ser possível.

Eu sinto que a minha melhor amiga está feliz, porque retornou para o lugar de onde algo sempre começa porque se não ela jamais teria habitado este mundo, e isso ás vezes me consola, mas eu queria que me consolasse sempre, mas isto é impossível porque sou mortal. Mas uma das vantagens que existe em ser mortal é nosso desejo constante de querer ser imortal, de querer viver nessa forma para sempre e esse desejo é inexistente em algo que jamais foi mortal, porque este não sabe o quanto é prazeroso viver neste mundo. Eu gostaria de pedir que não sofram por coisas que não existem, não procurem sinais onde jamais vão encontrar, porque eles estão sempre perto de nós, Deus está sempre perto de nós e saberemos quando nos tornamos capazes de enxergar os sinais.

São formas de sobrevivência que Jordan e Susi procuram, ao longo da narração desse romance, com um final surpreendente.

Denise Castelo Nogueira

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